Tecnologia sem sonho é pesadelo: por que precisamos imaginar futuros que sirvam a todos

Sidarta Ribeiro sorri levemente em frente a uma parede clara. Ele veste uma camiseta branca e tem cabelo curto e grisalho. Foto: Luiza Mugnol Ugarte (tecnologia)

No mundo corporativo, eficiência é palavra de ordem. Big data, performance, escalabilidade — toda tecnologia precisa rodar rápido, previsível e, de preferência, com um retorno do investimento garantido, gerando o maior lucro possível. Mas e se a obsessão por performance estivesse justamente impedindo de construir um futuro melhor? Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, autor de livros como O Oráculo da Noite e uma das vozes mais contundentes do Brasil sobre desigualdades, não há inovação real sem sonho. E não há sonho verdadeiro sem empatia.

“Eu venho para atrapalhar”, dispara ele logo no início da conversa quando pergunto sobre o ato de sonhar e inovar. “Se formos olhar para o mundo em que vivemos, que nunca produziu tanto conhecimento e riqueza e ainda é um mundo de muita pobreza e desigualdade, se acharmos que o propósito é a busca da eficiência desse sistema… estamos perdidos.”

A fala incomoda, mas não deveria. Afinal, estamos em um planeta em que 10% da população vive com fome, enquanto bilionários disputam quem vai ao espaço primeiro. Para Ribeiro, é urgente reconectar a tecnologia com a compaixão e o sonho coletivo. E isso passa, necessariamente, por enfrentar a distopia do agora.

Sonhar para além da lógica

Enquanto o mundo corporativo de tecnologia gira em torno da lógica, Ribeiro evoca o onírico. Não como fuga da realidade, mas como ferramenta estratégica. “Sonhar é importante. Mas mais do que sonhar para fazer um melhor movimento profissional, é sonhar com empatia. Empatia também é um tipo de sonho.”

Ele lembra que dormir mal, um sintoma crônico da cultura workaholic dos dias atuais, reduz nossa empatia. “A sociedade que vivemos, em que o trabalho invade a noite e o sono não é valorizado, leva à privação que nos torna menos empáticos.” E menos capazes de imaginar futuros compartilhados.

Na contramão desse modelo, ele aponta para os povos originários, como os Yanomami. “Entre eles, os sonhos não servem apenas para lidar com os próprios medos e desejos, mas para lidar com os desejos dos outros. Isso é viver em comunidade. E isso é algo que a nossa sociedade está esquecendo.”

Sidarta ainda faz uma recomendação direta para quem deseja entender melhor essa sabedoria ancestral. “O livro de Hanna Limulja, O desejo dos outros, muito bem escrito, mostra como que entre o povo Yanomami os sonhos são importantes para navegar com desejos e medos, mas também para encarar os medos e desejos das outras pessoas, porque no fim estamos em comunidade.”

Tecnologia, para quê?

A pergunta que ecoa durante toda a entrevista é simples e profunda: eficiência para quê? A crítica não é à tecnologia em si, mas à sua instrumentalização por um sistema que concentra renda, destrói o planeta e empobrece a maioria, provoca ele.

“Vivemos numa loucura em que os ativos não precisam ter mais utilidade. É a aposta pela aposta. NFT é ficção. Estamos vendendo o quê, vencendo quem? O mercado virou um jogo que ferra a maior parte da população.”

Para ele, é impossível falar de sonho sem falar de pesadelo. E o pesadelo atual é a concentração de poder e riqueza que desumaniza e desregulamenta. “Fico impressionado com o discurso de que temos que desregulamentar tudo para aumentar o lucro. Mas não aumenta o bem-estar das pessoas.”

IA que pode tudo

Ribeiro não é anti-tecnologia. Ao contrário. Ele vê na inteligência artificial (IA) uma potência de transformação. Mas alerta que essa potência pode servir tanto à equidade quanto à distopia. “Estamos caminhando para uma IA Geral que vai mudar todas as relações — de trabalho, produção, política, pessoais. E a pergunta é: quem vai se beneficiar disso?”

Se não houver planejamento, a IA pode agravar desigualdades. “Persistir que ela invada o trabalho sem regulamentar o que fazer quando o desemprego vier é irresponsável. O Estado vai ter que taxar os super-ricos, financiar renda básica, garantir teto, comida, cultura, educação. E ainda assim, o capitalismo vai girar.”

É uma provocação direta ao mercado. “A dependência de dinheiro deveria estar nos manuais psiquiátricos. Acumular capital para realizar coisas bacanas é sensacional. Agora, acumular para comprar mais relógio, mais iate? Estamos hipnotizados pela doença da mercadoria.”

Sonho como ciência e resistência

Apesar da resistência do meio corporativo, Ribeiro afirma: sonhar é ciência. “Sem sonhar, não há futuro possível”, diz. Ele aponta que o sono REM está diretamente relacionado à criatividade, à resolução de problemas e à construção simbólica. É durante o sono que o cérebro processa, conecta e recria. “Quando a pessoa que trabalha em marketing pensa em uma nova maneira de vender um produto, ela aciona o sonho.” E vai além: “A disrupção verdadeira não vem de planilhas. Vem do inconsciente, do simbólico, do que escapa ao controle.”

Por isso, ele defende uma integração entre saberes. “Não existe uma ciência única. Podemos chamar de ciência universitária hegemônica, mas existem outros saberes — das cosmovisões indígenas, de matriz africana — que são fundamentais para pensarmos em futuros plurais.”

Sonhar é coletivo e político

Na exposição “Sonhos: História, Ciência e Utopia”, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, que se encerra em 27 de abril, Sidarta celebra essas múltiplas formas de conhecimento. Não como alternativa esotérica, mas como estratégia política. Porque, para ele, o sonho é um direito. E, no mundo de hoje, um ato de resistência.

“Se voltarmos 12 mil anos, vamos encontrar pessoas vivendo com mais respeito, harmonia e empatia. Quem disse que a tecnologia é solução? Só será se for usada para diminuir os riscos e ampliar as possibilidades para todos”, comenta e emenda na provocação final, que vem como um pedido ou um aviso. “Podemos, sim, pensar um futuro com renda básica universal, dignidade, cultura, esporte, saúde. Ainda dá tempo. Mas só se a gente parar de sonhar sozinho. E começar a sonhar junto.”

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