Direct-to-cell não é ameaça às operadoras móveis, avalia BTG
A tecnologia direct-to-cell, ou D2D, que permite conectar celulares diretamente a satélites sem necessidade de equipamentos adicionais, deve ampliar a cobertura em áreas remotas e se consolidar como um serviço complementar às redes móveis tradicionais. É o que indica relatório do BTG Pactual publicado em 3 de abril de 2025. Segundo o documento, a nova tecnologia representa uma oportunidade para operadoras móveis, e não uma ameaça, já que depende da infraestrutura e do espectro que essas empresas já controlam.
No modelo, o sinal emitido por satélites de baixa órbita é retransmitido na frequência licenciada pelas operadoras móveis locais, garantindo compatibilidade com aparelhos convencionais. Além disso, a autenticação do usuário e a cobrança do serviço dependem da infraestrutura existente das teles, inclusive do SIM card.
Brasil é 4º maior mercado da Starlink
O relatório destaca o Brasil como um dos países mais promissores para a tecnologia direct-to-cell, principalmente devido à sua geografia extensa, à presença de regiões remotas como a Amazônia e à força do agronegócio. A Starlink já soma 345 mil clientes de banda larga via satélite no país — número que cresceu 2,3 vezes em um ano —, posicionando o Brasil como o 4º maior mercado global da empresa, atrás apenas de Estados Unidos, Canadá e México.
A adoção da tecnologia se mostra especialmente relevante para ampliar a conectividade em áreas onde a cobertura terrestre é inexistente. Segundo a Anatel, apenas 54% da população rural brasileira tem acesso à telefonia móvel, enquanto 99,8% dos moradores de áreas urbanas estão cobertos. Em rodovias federais e estaduais, 50,8% e 47,7% dos quilômetros, respectivamente, ainda não têm cobertura 3G, 4G ou 5G.
Parcerias são chave para modelo híbrido
O relatório observa que o sucesso do modelo depende de parcerias entre operadoras móveis e empresas satelitais, como já ocorre nos Estados Unidos, com o acordo entre a T-Mobile e a Starlink. O mesmo se repete em países como Japão, Canadá, Austrália e Peru. Nessas parcerias, as teles compartilham parte de seu espectro licenciado, enquanto a operadora de satélite fornece a conectividade fora da área de cobertura terrestre.
O BTG reforça que, além do espectro, as operadoras móveis são fundamentais para manter a regulação do setor, incluindo garantias como chamadas de emergência, proteção de dados e rastreamento de localização. Assim, o modelo híbrido garante a continuidade das obrigações regulatórias vigentes.
Serviço ainda é limitado, mas testes avançam
No momento, os testes do serviço direct-to-cell permitem apenas o envio de mensagens de texto e de voz. A Starlink promete lançar conectividade para dados móveis e serviços de Internet das Coisas (IoT) ainda em 2025, com chamadas de voz previstas para uma fase posterior. Durante furacões nos Estados Unidos, a tecnologia já se mostrou eficaz ao permitir o envio de mais de 100 mil SMS em áreas com torres terrestres inoperantes.
O relatório reconhece limitações técnicas, como a necessidade de “visão livre do céu” para funcionamento, latência superior à das redes terrestres e risco de congestionamento quando muitos usuários acessam simultaneamente a célula satelital. Apesar disso, aponta que a ampliação da constelação de satélites e a evolução da tecnologia devem melhorar a experiência do usuário ao longo do tempo.
Ampliação demora
Os analistas do BTG não comentam, no entanto, geopolítica nem licenças regulatórias. Embora haja oportunidade, a Starlink vê sua rede de satélite já bastante ocupada. E com isso, precisa lançar logo a segunda geração de seus satélites. Para explorar esta nova leva de equipamentos, aguarda aprovação do Conselho Diretor da Anatel, responsável por emitir as licenças de direito de exploração a detentoras de satélites estrangeiro.
O tema tem contornos geopolíticos, uma vez que Elon Musk, dono da Startlink, tem aconselhado de perto o presidente dos EUA, Donald Trump, que vem imponto restrições tarifárias a diversos países. O bilionário também tomou decisões sobre o funcionamento da Starlink na Ucrânia, país em guerra com a Rússia, que geraram no mundo político dúvidas sobre interferências possíveis da empresa em questões de soberania.
O relator do processo que pode autorizar a companhia a explorar mais 7,5 mil satélites de baixa órbita na Anatel, conselheiro Alexandre Freire, analisa se há impacto sobre a soberania e reflexos quando à sustentabilidade espacial. Na reunião de ontem, 3, o Conselho Diretor adiou em 120 dias uma decisão à respeito em função da complexidade da questão.
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