Embaixador do Paraguai relata espionagem do Brasil a chanceler em Assunção

O embaixador do Paraguai no Brasil, Juan Ángel Delgadillo, informou “em detalhes” ao ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez, sobre uma operação de inteligência brasileira contra funcionários do país vizinho em meio a negociações sobre tarifas de energia para a usina hidrelétrica de Itaipu. Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai disse que Ramírez recebeu nesta quinta-feira (3) o embaixador, que ele convocou há dois dias para uma reunião em Assunção, depois de saber da ação hacker brasileira.

“Durante a reunião, o embaixador informou ao ministro das Relações Exteriores em detalhes sobre a ação de inteligência ordenada pelo Brasil contra o Paraguai. Assim como o desenvolvimento e as implicações que o assunto está tendo no país vizinho”, diz a nota. Ainda segundo o texto, o chanceler paraguaio “deu instruções ao embaixador, e eles concordaram em manter um monitoramento constante do caso para acompanhar de perto os avanços”.

Na terça-feira, Ramírez também convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para pedir “explicações planejadas” sobre a operação e anunciou a suspensão por tempo indeterminado de “todas as negociações” sobre o Anexo C do Tratado de Itaipu, “até que – disse ele – o Brasil forneça os esclarecimentos correspondentes”.

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O governo brasileiro admitiu na segunda-feira que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) especificou uma operação de espionagem contra o Paraguai em 2022, durante o mandato presidencial de Jair Bolsonaro, mas alegou que encerrou a operação em 27 de março de 2023 e negou “categoricamente” que a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha qualquer envolvimento no caso.

O governo fez a declaração depois que o portal UOL revelou que a Abin montou uma operação de espionagem com o objetivo de obter acesso a informações sobre as negociações da tarifa de Itaipu, que é compartilhada pelos dois países. De acordo com o portal, que cita depoimento de um servidor da Abin à Polícia Federal, o planejamento da operação de espionagem começou no mandato de Bolsonaro e foi realizado durante o governo Lula.

Os ataques cibernéticos foram realizados a partir de servidores instalados no Chile e no Panamá, utilizando uma ferramenta chamada Cobalt Strike. A operação obteve acesso a computadores de “cinco ou seis” funcionários paraguaios, permitindo que a Abin obtivesse os valores que Assunção pretendia propor nas negociações tarifárias, bem como informações sobre sua posição em relação ao Anexo C do tratado assinado em 1973.

O Anexo C obriga o Paraguai a vender ao Brasil o excedente de sua cota de energia produzida em Itaipu a preços preferenciais. Em 2024, ambos os países decidiram aumentar a tarifa que o Brasil pagará nos próximos três anos pela energia excedente paraguaia de Itaipu em US$ 2,50, para US$ 19,28 por quilowatt-mês.

Além disso, os países aprovaram um instrumento de entendimento para modificação do Anexo C, que permitirá ao Paraguai vender livremente seu excedente de energia ao mercado brasileiro, regulado ou não regulamentado. O acordo está previsto para ser assinado em 30 de maio, conforme anunciado a presidência paraguaia no mês passado.

*Com informações da EFE
Publicado por Carol Santos