Mais tensões do Oriente

Nestes últimos 12 meses muito se fala sobre Oriente Médio, e sobre como o conflito em Israel, territórios palestinos e Líbano pode ter um impacto global. Todavia, nos esquecemos que no extremo oriente do nosso planeta, bem nos confins da Ásia, outro conflito adormecido dá cada vez mais sinais que poderia despertar. Mais uma vez em 2024, o governo da República Popular da China conduziu uma série de exercícios militares de sua marinha e aeronáutica ao redor da ilha de Taiwan.
Desta vez Pequim resolveu responder de maneira imediata às falas do presidente taiwanês Lai Ching-te sobre cada país ser soberano e sobre nenhum dos governos ter controle sobre o outro. O político recém-eleito na ilha de Formosa, já é considerado um “separatista perigoso” para o governo central do Partido Comunista Chinês, que tem ampliado há mais de 1 ano sua presença militar no tenso estreito de Taiwan e até mesmo ultrapassado certos limites internacionalmente estabelecidos como zonas não violáveis.
Desde 1949, já no contexto da Guerra Fria, o estabelecimento de Taiwan como um território regido por outras leis promoveu um enorme sentimento de divisão no imaginário chinês, que apesar de ter ficado em sua esmagadora maioria no continente, jamais compreendeu que o seu mesmo povo Han buscaria ser algo diferente daquilo decidido por Pequim em uma ilha tão fortemente ligada com a história chinesa dos últimos séculos.
Inicialmente regida por um partido único e de forma também ditatorial por Chiang Kai-shek, Taiwan veio a encontrar seu caminho democrático apenas nos anos 1990, quando eleições pluripartidárias em igualdade de disputa aconteceram. Trilhando uma jornada como uma democracia liberal, nada foi mais natural do que a aproximação taiwanesa aos seus poucos vizinhos democráticos, como o Japão e Coreia do Sul, e consequentemente todo o bloco ocidental.
Naquele mesmo momento a China também estava atravessando profundas mudanças econômicas, onde a era de modernização de Deng Xiaoping, rompeu com a violência estatal extrema da Revolução Cultural de Mao, e gradativamente trouxe o mundo até a China e a China até o mundo. Desde então, foram décadas de crescimento econômico constante, a construção de uma diplomacia sólida dentro e fora da Ásia, além da execução de vários planos a longo prazo para acabar de vez com qualquer chance de separatismo.
As questões relacionadas ao Tibet já começaram a serem “resolvidas” desde 1959 com a expulsão do 14° Dalai Lama do país, que por sua vez se estabeleceu no norte da Índia. O povo turcomano Uigur, de Xinjiang, passou por constantes processos de “reeducação” na última década segundo muitos jornalistas investigativos internacionais, acabando de vez com o ímpeto separatista do povo do Turquestão Oriental. Por fim, temos as leis de segurança nacional aplicadas sob Hong Kong em 2020, que acabou de facto com as escolhas democráticas e autônomas desse arquipélago, colocando nas mãos de Pequim todas as decisões importantes dentro dessa região tão rica.
Eis que chegamos a maior e mais incômoda pedra no sapato do governo central chinês, Taiwan. Pelos últimos 70 anos o pêndulo de poder mudou entre Pequim e Taipé. Inicialmente os taiwaneses que detinham o assento chinês nas Nações Unidas e no seu Conselho de Segurança, além de desfrutar de melhores relações diplomáticas com um maior número de países.
Com o crescimento populacional astronômico da República Popular e seu subsequente crescimento econômico com a abertura do país, o pêndulo se moveu em direção à China continental e Taiwan viu-se pouco a pouco mais isolado, até mesmo dentro de seu círculo mais próximo de aliados, que tentados com o dinheiro em Shanghai e Guangzhou, voltou suas costas a Taipé.
Apesar dessa mudança rápida na geopolítica, nas questões econômicas Taiwan conseguiu se tornar cada vez mais relevante através da tecnologia. A produção de semicondutores e microchips têm em Taiwan as suas principais fábricas, principalmente naqueles componentes mais refinados e de maior valor agregado. Em uma era onde a corrida armamentista se trava principalmente através da via tecnológica, controlar tais indústrias, ou ser aliado do país onde elas estão, é fundamental para não estar passos atrás. Por isso mesmo, que qualquer tensão de caráter militar em Taiwan preocupa todos os mercados e teria efeito devastador em toda a economia global.
Para o Partido Comunista Chinês, Taiwan significa um assunto de caráter interno, uma questão que diz respeito apenas à China por se tratar de uma província “rebelde”. Para os americanos, principalmente no atual governo Biden, manter o status quo, onde Taiwan não tem relevância internacional, além da econômica, é a chave para manter a competição entre as duas maiores economias do mundo fora dos campos de batalha. De qualquer maneira, cada vez mais, e com maior frequência, a China se faz presente no estreito de Taiwan, talvez apenas como um presságio do que estaria por vir.