O segredo do sucesso de Lula e Bolsonaro estaria nos erros que cometem?

Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva são, sem dúvida, os dois maiores protagonistas da política brasileira nas últimas décadas. Grande parte dessa projeção vem da forma peculiar como desenvolveram um modo pessoal de se comunicar. Cada um criou um estilo próprio, marcado por aspectos emocionais e diretos, por vezes desordenados, mas extremamente eficazes para conectar-se à boa parte dos eleitores.
Analisar a oratória de ambos não é tarefa simples, especialmente num cenário de polarização acirrada como o atual. Isso porque, como mostra o viés de confirmação – e em certa medida a própria teoria da recepção -, o público geralmente aceita melhor aquilo que está alinhado com suas convicções e rejeita o que não seja conveniente. Mesmo assim, é interessante observar com isenção partidária o que torna a comunicação desses líderes ao mesmo tempo tão cheia de falhas e tão impactante.
Os pontos fortes de Bolsonaro
Bolsonaro nunca pretendeu ser um orador convencional. Seu discurso se apoia justamente na quebra de protocolos, no improviso afiado, em frases curtas e na repetição incansável de bordões e expressões religiosas. “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” deixou de ser apenas um slogan de campanha para se tornar uma verdadeira marca identitária.
Até mesmo as passagens bíblicas que costuma citar, como João 8:32 – “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” -, vão além de meras citações, pois são estratégias calculadas de aproximação. A linguagem simples e as repetições constantes cumprem uma dupla função, a de facilitar a memorização e reforçar a impressão de convicção.
As fragilidades de Bolsonaro
Sua força reside na imagem que construiu junto aos apoiadores, a de alguém que “diz o que pensa”, custe o que custar. Mas é exatamente essa característica, vista como virtude por muitos, que também representa seu calcanhar de Aquiles. Com frequência, Bolsonaro desconsidera o contexto, enfrenta jornalistas, ridiculariza adversários e acaba prejudicado por suas próprias palavras.
Muitas declarações durante a pandemia, ainda que contivessem alguma fonte de verdade, foram percebidas como insensíveis ou perigosas. Rotuladas pela oposição e pela imprensa como desinformadas, essas falas terminaram por desgastar sua imagem junto a parcelas mais amplas da população.
Os pontos fortes de Lula
Lula, em contraste, desenvolveu um estilo de comunicação baseado na emoção, na narrativa de superação e num carisma inato. Aprendeu a falar como o povo e para o povo. Improvisa com naturalidade, emprega metáforas, frases de impacto e expressões coloquiais com maestria. Alterna entre momentos de indignação, descontração e afeto, criando uma relação intensa e cativante com seu público. Seu discurso frequentemente privilegia a intuição em detrimento da racionalidade, apoiando-se em sentimentos compartilhados com a plateia. Essa foi sua marca registrada e sua grande força durante décadas.
As fragilidades de Lula
Essa mesma espontaneidade, porém, começou a se voltar contra ele. Em várias ocasiões recentes, o improviso resultou em comentários inapropriados, gafes diplomáticas, informações incorretas e declarações rechaçadas por diferentes grupos. Lula perdeu parte da precisão e clareza que já demonstrou ter.
Como resultado, sua credibilidade se enfraqueceu, e não por acaso o presidente enfrenta atualmente seus índices mais baixos de aprovação popular desde o início de sua trajetória política.
Sob a luz dos clássicos
Se considerarmos a ótica da tradição clássica, Aristóteles, Quintiliano e Cícero provavelmente reprovariam ambos. Nenhum dos dois se adequa ao ideal do orador perfeito, que harmoniza razão, emoção e integridade moral. Maquiavel, contudo, nos lembraria que na política a eficácia nem sempre depende da perfeição retórica, mas sim da habilidade de conquistar e manter seguidores, ainda que esse comportamento implique transgredir regras.
Lula, com suas falas desconexas e tropeços públicos, compromete a lógica e o decoro. Bolsonaro, com sua postura agressiva e inflexível, desafia esses mesmos princípios, além de colocar em dúvida sua integridade.
Quando os erros viram acertos
Apesar disso, ambos alcançaram extraordinário sucesso político. Como demonstra a teoria de Pierre Bourdieu, sua eficácia simbólica deriva menos da forma do discurso e mais da acumulação de capital político O paradoxo está no fato de que frequentemente triunfam exatamente por violarem as convenções.
Sua comunicação não é polida, mas é carregada de simbolismo, identidade e emoção. No final das contas, o que define o valor de um discurso político é seu resultado. Se um líder conquista votos e mobiliza bases fiéis, sua oratória, gostemos ou não, cumpriu seu propósito.
E você, independentemente de sua posição ideológica, seria capaz de identificar outros aspectos positivos e negativos na comunicação de cada um? Participe do debate. Muitas vezes, é justamente ao ouvir o que nos desagrada que mais aprendemos sobre a arte da persuasão. Siga pelo Instagram: @polito