O ‘Efeito Orloff’ na crise do Equador pode ser um novo Bukele

A economia e a política se apoderaram de uma criação de sucesso da publicidade da década de 80 para justificar fatos gerados na Argentina e que se reproduziam por aqui. Era o chamado “Efeito Orloff”. Tudo por conta do bordão utilizado na propaganda de uma vodka, que apresentava um sujeito saudável que desafiava o público com a frase “Eu sou você amanhã!”. Claro, a previsão só se aplicava a quem consumisse aquela bebida, que entre as qualidades destacava a de não produzir os efeitos da famosa ressaca do dia seguinte. Era uma espécie de destilado para os sóbrios. Redemocratizada antes do Brasil, a Argentina lançou o Plano Austral, de combate à inflação, que mudava a moeda e se baseava em congelamento de preços. No auge do Efeito Orloff, seguimos o mesmo receituário. E os dois hermanos se deram muito mal!

A violência sem controles no Equador não apenas assusta a atônita população do país, como desafia a vizinhança. Muitos desses países já se perguntam quem será o Equador de amanhã. Venezuela, Peru e Colômbia, até pela proximidade geográfica e ação de criminosos organizados, são os candidatos mais óbvios a conviver em um Estado encurralado pelo crime. E o Brasil não está muito diferente deles. Há décadas, comunidades de cidades de todas as regiões do país são ameaçadas pelo crime organizado, que pratica de forma impune ataques visando extorsão, roubos, assassinatos, sequestros e cobrança de pedágios pela utilização de serviços básicos e até mesmo na singela compra de um garrafão de água. Isso sem contar tráfico de drogas, de armas e jogo, nos morros, nas comunidades, bairros populares e até mesmo em zonas habitadas pela elite. A ousadia chegou ao paroxismo com a exigência por parte de um bando de pagamento de pedágio para que uma empreiteira pudesse fazer obra contratada pela prefeitura.

Bem informadas, as redes criminosas estão atentas aos noticiários. Sabem, por exemplo, que a pujança do agronegócio faz brotar da terra soja e dinheiro no Centro-Oeste do país. E, não à-toa, a cada vez mais rica cidade mato-grossense de Sorriso agora assiste atordoada ao confronto entre quadrilhas. Siglas como PCC, CV e TCP, além de nomes como Família do Norte, Bonde dos 13 e Família Terror espalham pânico e gozam de impunidade em praticamente todas as regiões do país. O problema é sério e com potencial de comprometer nossas instituições. No Equador, o Estado impotente já anunciou, desde 2019, absurdos 42 decretos de estado de exceção. O bando do megatraficante Fito, sucursal no país do mexicano Cartel de Sinaloa, uma multinacional do tráfico de drogas, certamente não está preocupado com isso. Após a espetacular invasão na última segunda-feira de um canal de televisão por parte dos criminosos, mais do que nunca o país discute se não é chegado o momento de uma solução inspirada em El Salvador.

No pequeno país centro-americano, que até 2022 tinha os piores indicadores de violência do mundo, o presidente de extrema direita Nayib Bukele atropelou a Constituição, mudou ministros da Suprema Corte, construiu o maior presídio do mundo e deu plenos poderes para as forças de segurança lidarem como bem entendem contra o crime. Em menos de dois anos, a criminalidade desabou, o país está seguro e Bukele goza de aprovação de 94% da população. Só que todos os dias os presídios recebem inocentes vítimas de acusações frágeis, pessoas são torturadas e muitos presos ficam encarcerados por mais de um ano sem motivos. Mas, para a população antes acuada, dane-se que o Estado de Direito foi espezinhado. O que importa é a segurança. Esse é um outro perigo que o Efeito Orloff produz por conta do Equador. A tentação de que, diante da fragilidade do Estado, demagogos queiram ser o Bukele de amanhã. E aí, a ressaca seria bem dolorida.